martes, 26 de febrero de 2013

sábado, 26 de enero de 2013

Roseana Murray







CASA


Retiro o lastro da casa,
suas raízes na terra,
corto as amarras, as cordas,
tudo o que pesa se esvai.

Deixo que a tarde
com seu ar azul,
inunde a casa de luz,
retiro dos quatro cantos
a dor acumulada,
as flores mortas
e então, livre de todo o peso,
o relógio bate apenas
as horas de alegria
e em volta da mesa
todos os que partiram,
os que ficaram,
entrelaçam as mãos.

A casa voa.

domingo, 16 de septiembre de 2012

viernes, 7 de septiembre de 2012

Waly Salomão

Devenir, devir



Término de leitura

de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.



Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.



Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.



Morro e transformo-me.


Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém



Morre e transforma-te.   



Hoje



O que menos quero pro meu dia

polidez,boas maneiras.
Por certo,
               um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)

Hoje só quero ritmo.

Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão

de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,

pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
                e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
                aleatória.

Hoje...

lunes, 25 de junio de 2012

Eduardo Kobra






Mural em Nova York

Mural em Votuporanga/SP - Brasil

Maria Esther Maciel

PRECE
Dê-me o esquecimento meu pai.
Dê-me uma noite sem sombra
ou sobressalto, um sono inteiro
um instante sem rumor.
Dê-me teu silêncio meu pai.
A solidez das pedras, o rigor das coisas
a solidão sem dor.


DESTERRO
Desabitado o corpo
resta a sombra
do anjo sem nome

O reino do longe
é aqui: na terra
insone, onde a pedra
consome a falsa raiz.


OFÍCIO
Escrever
a água
da palavra mar
o voo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada.

domingo, 27 de mayo de 2012

Na terra do coração - Caio Fernando Abreu

"Meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada."

"Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês."

"Meu coração é uma planta carnívora morta de fome."

"Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam por destruir tudo."

"Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam muito longe, em direção à estrela Vega. Levam junto quem me ama, me levam junto também.'

"Faquir invonluntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso,. Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração teu."

Escolha dos textos: Cynthia Lopes
O Estado de Sâo Paulo, 10/2/1988

domingo, 1 de abril de 2012

jueves, 29 de marzo de 2012

Vinícius de Moraes (Sonetos)

Soneto de véspera




Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou - fria de vida

Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...

***********************


Soneto do amor como um rio




Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

domingo, 26 de febrero de 2012

Cláudio Souza Pinto

Humor em telas surrealistas e poéticas.









viernes, 24 de febrero de 2012

SONETO DO AZUL VERMELHO

Danço quieto nas zonas licenciosas das orquestras.
Com imaginação e desejo seduzo as mulheres
que já passara a limpo os magmas dos vulcões.
Escrevo cartas, sonetos mara meditações, paisagens.

Faço saraus, ilustrações, abandonos, frestas.
Quando as danças aguadas me pedem passagem,
lá fora, frios, os carros rangem os pneus nas rochas
em pressas safíricas, firmes, mas inúteis e baldadas.

De outro modo quero as possibilidades das danças
em baladas íntimas no corpo fogoso da brandura.
Quero ouvir a noite, agradar o sorriso, domar o pranto.

E se os sambas-canções triunfarem sobre as sonatas
o eco do meu peito acolherá tanto desejo e candura
que as nossas bocas, rubis obscenos, se atarão ao encanto.

(Rogério Pimentel - Antologia Simbiose)

viernes, 17 de febrero de 2012

domingo, 4 de diciembre de 2011

Nei Duclós

Sarro


Sou teu escravo, mas não me tens cativo
e sendo minha não serás meu gado
proprietária da graça que te faz rainha
impões com a beleza o que me dá vontade

Perguntam como faço quando estás sozinha
e cuidas do teu corpo, extrema divindade
digo que me deito à espreita da vinha
apogeu da festa sem papéis trocados

A não ser que o curral onde o desejo esgrime
abrigue uma transgressão de personagens
e viramos bichos farejando o orgasmo

A submissão se exime e pede licença
deixa de ser tortura, exílio e desavença
e se transforma no sorvo de infinito sarro



Ruptura


Quero que fiques presa à minha pele
no grude que o mel impregna de doçura
e não te afastes mesmo que haja bruma
e emerjas teu corpo de gozar profundo

Fique assim de cabeça no meu ombro
a respirar o sono das campânulas
que vibram sem soar na relva fria
onde vivemos em plátanos de assombro

Jamais cansamos desse deitar em cântaro
bebida de solar em tempo sem espinhos
que inventamos pelo amor, doce ruptura

Ninguém resiste à imposição da chama
que ferve em nós como combustível
máquina de tesão em corações na chuva



Pecado


É pecado dizer não à natureza
matar o mar com toda sorte de impureza
encher a praia de concreto e colchão velho
Espalhar lixo até em raiz de castanheira

É tão óbvio que constrange o verso
Impossível conviver longe da trilha
do choque bom no verão da cachoeira
ou do assombro no paredão da serra

Este mundo não foi feito sem projeto
Deus desenha e gigantes se concentram
na alquimia das águas e das pedras

Temos paisagem porque existe o Arquiteto
Não precisa destruir porque é um fato
fazermos parte do eterno só num trecho

miércoles, 16 de noviembre de 2011

miércoles, 2 de noviembre de 2011

Carlos Machado

Anatomias

anatomia de coisas

desnudar
o pássaro de vidro
e ver em seu lado
oculto
o outro lado
de seu vulto

dissecar
vozes
sombras descalças
e perquirir
a substância
escassa que principia
na polpa 
branca do dia


flagrar a ânsia
do relógio
e a cadência
dessa máquina
humana


fotografar
a permanência
da chama


anatomia do gesto


dobrar a esquina
de mim mesmo
olhar pra trás
e ainda
enxergar
o resto de
meu gesto
tonto




Pássaro de Vidro (2)


quanto mais escancaras
teu íntimo de vidro


quanto mais descortinas
o avesso dos sentidos


mais o que revelas
deixas escondido.




Pássaro de Vidro (3)


o pássaro é cego
e cego é quem
se agita
em seu espaço
ambíguo


esse espaço
de incessante
tarde nua


onde o voo
risca um traço
branco
de vidro no vidro

Fábia Schnoor - Cartão Postal


lunes, 31 de octubre de 2011

31 de outubro - Aniversário do poeta Drummond

Poema de sete faces



Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.



As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.



O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.



O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.



Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus,

se sabias que eu era fraco.



Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.



Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.


(Carlos Drummond de Andrade)






martes, 25 de octubre de 2011

lunes, 24 de octubre de 2011

Elisa Lucinda


Viver de Poesia



Há tanto o que fazer com a poesia

que eu quase não dou conta das tarefas.

Trazê-la em estado de circulação

é mais que assumi-la sangue

de tanto me afundar no mangue

decorei o caminho do emergir

a volta do desmaio

do cair em si em mi

e mais todas as notas do percurso e escola.

Há tanto o que transar com a poesia

que tenho estado com ela sem nenhum projeto de anticoncepção

falá-la então é o VT desse sexo explícito de procriação

com direito a prazer e gozo em cada dobra de rima

Trazendo-a em estado vivo exerço a alquimia

de atropelar o efêmero

com o doce trator da perpetuação

agarrada aos motivos eternos

dos versos que eu escrevi

latejante exposição em estado de música e fotografia

é o que faço aqui

e aqui chego com meus cães:

sigo tudo de acordo com as ordens do Deus poema

que é o fiel domador.



Corro, sento, busco ossos

e inda faço gracinhas

elefante, golfinho, leão, macaquinho,

sopro, tambor, teclado, cavaquinho

vou bebendo vinho.

Há tanto o que fazer com a poesia

Há tanto o que namorar com a poesia

Há tanto o que compreender com a poesia

Há tanto o que viajar com a poesia

que eu com esse excesso de bagagem

passo na cara do vigia

de mãos vazias.

Mas tamanha é a magia

que toda a muamba que ninguém via

agora se esparrama no palco:

ela rainha, galinha

sambando no pedaço,

minha rainha poesia

e de salto alto.



(Rio, verão de 1991)





martes, 11 de octubre de 2011

domingo, 2 de octubre de 2011

Thereza Miranda














Ilha de Itaparica - 1998
(pintura)












Cristo III
(gravura)

miércoles, 28 de septiembre de 2011