jueves, 27 de febrero de 2014
A poesia de Marcos Caiado
11
e quando o amor chegar
não faça planos
nem suponha infinitudes:
deguste os quitutes.
quando o amor chegar
desfrute
do som dos atabaques.
se entregue aos batuques.
o amor provoca música
e faz bico às matemáticas:
tem seus próprios números
e truques.
quando, por acaso,o amor chegar
deixe estar!
se for para fazer planos,
que sejam aeroplanos.
14
me encanta
afagar o nada pensando em ti
e depois florir que nem metáfora
me encanta o mantra breve do teu beijo:
tilintar de radinho, tique redemoinho
de ventilador quase sem ar...
me encanta perambular
entre a invenção da tua presença
e a reticência.
15
sombra
no quintal da minha casa,
nova sala florescera.
há um pé de sofá
onde havia a goiabeira.
e quando o amor chegar
não faça planos
nem suponha infinitudes:
deguste os quitutes.
quando o amor chegar
desfrute
do som dos atabaques.
se entregue aos batuques.
o amor provoca música
e faz bico às matemáticas:
tem seus próprios números
e truques.
quando, por acaso,o amor chegar
deixe estar!
se for para fazer planos,
que sejam aeroplanos.
14
me encanta
afagar o nada pensando em ti
e depois florir que nem metáfora
me encanta o mantra breve do teu beijo:
tilintar de radinho, tique redemoinho
de ventilador quase sem ar...
me encanta perambular
entre a invenção da tua presença
e a reticência.
15
sombra
no quintal da minha casa,
nova sala florescera.
há um pé de sofá
onde havia a goiabeira.
viernes, 10 de enero de 2014
Manoel de Barros
"Palavra dentro da qual estou a milhões
de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
Como árvore."
("Palavras" - Do Livro "O fazedor de amanhecer" - Manoel de Barros)
de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
Como árvore."
("Palavras" - Do Livro "O fazedor de amanhecer" - Manoel de Barros)
jueves, 26 de diciembre de 2013
sábado, 27 de julio de 2013
domingo, 21 de julio de 2013
Carlos Nejar
Abandonei-me ao vento
Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe
quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.
E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.
Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.
lunes, 10 de junio de 2013
martes, 26 de febrero de 2013
sábado, 26 de enero de 2013
Roseana Murray
Retiro o lastro da casa,
suas raízes na terra,
corto as amarras, as cordas,
tudo o que pesa se esvai.
Deixo que a tarde
com seu ar azul,
inunde a casa de luz,
retiro dos quatro cantos
a dor acumulada,
as flores mortas
e então, livre de todo o peso,
o relógio bate apenas
as horas de alegria
e em volta da mesa
todos os que partiram,
os que ficaram,
entrelaçam as mãos.
A casa voa.
domingo, 6 de enero de 2013
domingo, 4 de noviembre de 2012
domingo, 16 de septiembre de 2012
viernes, 7 de septiembre de 2012
Waly Salomão
Devenir, devir
Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.
Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.
Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.
Morro e transformo-me.
Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém
Morre e transforma-te.
Hoje
O que menos quero pro meu dia
polidez,boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)
Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.
Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.
Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.
Hoje...
lunes, 23 de julio de 2012
domingo, 22 de julio de 2012
lunes, 25 de junio de 2012
Maria Esther Maciel
PRECE
Dê-me o esquecimento meu pai.
Dê-me uma noite sem sombra
ou sobressalto, um sono inteiro
um instante sem rumor.
Dê-me teu silêncio meu pai.
A solidez das pedras, o rigor das coisas
a solidão sem dor.
DESTERRO
Desabitado o corpo
resta a sombra
do anjo sem nome
O reino do longe
é aqui: na terra
insone, onde a pedra
consome a falsa raiz.
OFÍCIO
Escrever
a água
da palavra mar
o voo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada.
DESTERRO
Desabitado o corpo
resta a sombra
do anjo sem nome
O reino do longe
é aqui: na terra
insone, onde a pedra
consome a falsa raiz.
OFÍCIO
Escrever
a água
da palavra mar
o voo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada.
sábado, 23 de junio de 2012
domingo, 27 de mayo de 2012
Na terra do coração - Caio Fernando Abreu
"Meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada."
"Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês."
"Meu coração é uma planta carnívora morta de fome."
"Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam por destruir tudo."
"Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam muito longe, em direção à estrela Vega. Levam junto quem me ama, me levam junto também.'
"Faquir invonluntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso,. Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração teu."
Escolha dos textos: Cynthia Lopes
O Estado de Sâo Paulo, 10/2/1988
domingo, 1 de abril de 2012
jueves, 29 de marzo de 2012
Vinícius de Moraes (Sonetos)
Soneto de véspera
Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?
Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?
Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou - fria de vida
Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...
***********************
Soneto do amor como um rio
Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.
Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.
Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo
E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.
Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?
Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?
Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou - fria de vida
Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...
***********************
Soneto do amor como um rio
Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.
Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.
Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo
E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.
domingo, 26 de febrero de 2012
viernes, 24 de febrero de 2012
SONETO DO AZUL VERMELHO
Danço quieto nas zonas licenciosas das orquestras.
Com imaginação e desejo seduzo as mulheres
que já passara a limpo os magmas dos vulcões.
Escrevo cartas, sonetos mara meditações, paisagens.
Faço saraus, ilustrações, abandonos, frestas.
Quando as danças aguadas me pedem passagem,
lá fora, frios, os carros rangem os pneus nas rochas
em pressas safíricas, firmes, mas inúteis e baldadas.
De outro modo quero as possibilidades das danças
em baladas íntimas no corpo fogoso da brandura.
Quero ouvir a noite, agradar o sorriso, domar o pranto.
E se os sambas-canções triunfarem sobre as sonatas
o eco do meu peito acolherá tanto desejo e candura
que as nossas bocas, rubis obscenos, se atarão ao encanto.
(Rogério Pimentel - Antologia Simbiose)
Com imaginação e desejo seduzo as mulheres
que já passara a limpo os magmas dos vulcões.
Escrevo cartas, sonetos mara meditações, paisagens.
Faço saraus, ilustrações, abandonos, frestas.
Quando as danças aguadas me pedem passagem,
lá fora, frios, os carros rangem os pneus nas rochas
em pressas safíricas, firmes, mas inúteis e baldadas.
De outro modo quero as possibilidades das danças
em baladas íntimas no corpo fogoso da brandura.
Quero ouvir a noite, agradar o sorriso, domar o pranto.
E se os sambas-canções triunfarem sobre as sonatas
o eco do meu peito acolherá tanto desejo e candura
que as nossas bocas, rubis obscenos, se atarão ao encanto.
(Rogério Pimentel - Antologia Simbiose)
viernes, 17 de febrero de 2012
martes, 27 de diciembre de 2011
domingo, 4 de diciembre de 2011
Nei Duclós
Sarro
Sou teu escravo, mas não me tens cativo
e sendo minha não serás meu gado
proprietária da graça que te faz rainha
impões com a beleza o que me dá vontade
Perguntam como faço quando estás sozinha
e cuidas do teu corpo, extrema divindade
digo que me deito à espreita da vinha
apogeu da festa sem papéis trocados
A não ser que o curral onde o desejo esgrime
abrigue uma transgressão de personagens
e viramos bichos farejando o orgasmo
A submissão se exime e pede licença
deixa de ser tortura, exílio e desavença
e se transforma no sorvo de infinito sarro
Ruptura
Quero que fiques presa à minha pele
no grude que o mel impregna de doçura
e não te afastes mesmo que haja bruma
e emerjas teu corpo de gozar profundo
Fique assim de cabeça no meu ombro
a respirar o sono das campânulas
que vibram sem soar na relva fria
onde vivemos em plátanos de assombro
Jamais cansamos desse deitar em cântaro
bebida de solar em tempo sem espinhos
que inventamos pelo amor, doce ruptura
Ninguém resiste à imposição da chama
que ferve em nós como combustível
máquina de tesão em corações na chuva
Pecado
É pecado dizer não à natureza
matar o mar com toda sorte de impureza
encher a praia de concreto e colchão velho
Espalhar lixo até em raiz de castanheira
É tão óbvio que constrange o verso
Impossível conviver longe da trilha
do choque bom no verão da cachoeira
ou do assombro no paredão da serra
Este mundo não foi feito sem projeto
Deus desenha e gigantes se concentram
na alquimia das águas e das pedras
Temos paisagem porque existe o Arquiteto
Não precisa destruir porque é um fato
fazermos parte do eterno só num trecho
Sou teu escravo, mas não me tens cativo
e sendo minha não serás meu gado
proprietária da graça que te faz rainha
impões com a beleza o que me dá vontade
Perguntam como faço quando estás sozinha
e cuidas do teu corpo, extrema divindade
digo que me deito à espreita da vinha
apogeu da festa sem papéis trocados
A não ser que o curral onde o desejo esgrime
abrigue uma transgressão de personagens
e viramos bichos farejando o orgasmo
A submissão se exime e pede licença
deixa de ser tortura, exílio e desavença
e se transforma no sorvo de infinito sarro
Ruptura
Quero que fiques presa à minha pele
no grude que o mel impregna de doçura
e não te afastes mesmo que haja bruma
e emerjas teu corpo de gozar profundo
Fique assim de cabeça no meu ombro
a respirar o sono das campânulas
que vibram sem soar na relva fria
onde vivemos em plátanos de assombro
Jamais cansamos desse deitar em cântaro
bebida de solar em tempo sem espinhos
que inventamos pelo amor, doce ruptura
Ninguém resiste à imposição da chama
que ferve em nós como combustível
máquina de tesão em corações na chuva
Pecado
É pecado dizer não à natureza
matar o mar com toda sorte de impureza
encher a praia de concreto e colchão velho
Espalhar lixo até em raiz de castanheira
É tão óbvio que constrange o verso
Impossível conviver longe da trilha
do choque bom no verão da cachoeira
ou do assombro no paredão da serra
Este mundo não foi feito sem projeto
Deus desenha e gigantes se concentram
na alquimia das águas e das pedras
Temos paisagem porque existe o Arquiteto
Não precisa destruir porque é um fato
fazermos parte do eterno só num trecho
miércoles, 16 de noviembre de 2011
miércoles, 2 de noviembre de 2011
Carlos Machado
Anatomias
anatomia de coisas
desnudar
o pássaro de vidro
e ver em seu lado
oculto
o outro lado
de seu vulto
dissecar
vozes
sombras descalças
e perquirir
a substância
escassa que principia
na polpa
branca do dia
flagrar a ânsia
do relógio
e a cadência
dessa máquina
humana
fotografar
a permanência
da chama
anatomia do gesto
dobrar a esquina
de mim mesmo
olhar pra trás
e ainda
enxergar
o resto de
meu gesto
tonto
Pássaro de Vidro (2)
quanto mais escancaras
teu íntimo de vidro
quanto mais descortinas
o avesso dos sentidos
mais o que revelas
deixas escondido.
Pássaro de Vidro (3)
o pássaro é cego
e cego é quem
se agita
em seu espaço
ambíguo
esse espaço
de incessante
tarde nua
onde o voo
risca um traço
branco
de vidro no vidro
anatomia de coisas
desnudar
o pássaro de vidro
e ver em seu lado
oculto
o outro lado
de seu vulto
dissecar
vozes
sombras descalças
e perquirir
a substância
escassa que principia
na polpa
branca do dia
flagrar a ânsia
do relógio
e a cadência
dessa máquina
humana
fotografar
a permanência
da chama
anatomia do gesto
dobrar a esquina
de mim mesmo
olhar pra trás
e ainda
enxergar
o resto de
meu gesto
tonto
Pássaro de Vidro (2)
quanto mais escancaras
teu íntimo de vidro
quanto mais descortinas
o avesso dos sentidos
mais o que revelas
deixas escondido.
Pássaro de Vidro (3)
o pássaro é cego
e cego é quem
se agita
em seu espaço
ambíguo
esse espaço
de incessante
tarde nua
onde o voo
risca um traço
branco
de vidro no vidro
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